Finanças / Custos
Um outro ponto de vista Se souber que um dos seus produtos tem um custo unitário de 38 contos e lhe aparecer uma proposta para o fornecimento de uma grande encomenda a 30 contos, que dirá?
Se a sua primeira reacção foi: “vender com prejuízo nem pensar!” então leia atentamente o presente artigo onde tentaremos alertá-lo, de uma forma objectiva, para a complexidade dos custos de produção. Muitas são as discussões geradas acerca dos custos apurados pelos diversos métodos de orçamentação. Quais serão os critérios mais adequados para repartir os custos indirectos industriais e os de estrutura? Será que se devem aligeirar os custos não directos dos produtos em fase de lançamento sobrecarregando os que estão no fim do seu ciclo de vida, ou o contrário? A óptica dos custos totais (que se caracteriza pela soma sucessiva dos custos directos, indirectos industriais, comerciais e de estrutura) é amplamente usada e logicamente serve de linha de orientação para a fixação de preços. No entanto, existirão situações em que este não será o método mais adequado. De facto, na gestão corrente, o método dos custos totais é usualmente utilizado restando ao responsável comercial a definição da margem a aplicar. A questão coloca-se quando somos chamados a tomar decisões que se prendem com uma oportunidade de exportação ou de “tomar posição” num cliente de elevado potencial e em que o preço a acordar se encontra abaixo do custo total orçamentado. Que fazer?
Quando esse momento chegar é importante que se utilize o método da análise marginal, o qual se centra nos dois tipos de custos fundamentais: variáveis e fixos. Se por um lado temos os custos variáveis intimamente ligados ao nível de actividade produtiva, oscilando na razão directa da sua variação, por outro lado, os custos fixos são independentes dos volumes de produção não se alterando senão quando existem modificações de estrutura da empresa ou do departamento produtivo. Como exemplos de custos variáveis temos:
- Matérias-primas e subsidiárias;
- Energia consumida pelos equipamentos produtivos;
- Transporte das mercadorias e produtos;
- Comissões sobre as vendas;
- Horas extraordinárias.
Ao nível de custos fixos teremos:
- Alugueres;
- Amortizações;
- Estrutura da empresa (Departamentos de apoio);
- Ordenados.
Assim, o método da
análise marginal deverá ser utilizado sempre que seja necessário tomar uma decisão do tipo acima descrito. Para o efeito teremos de encontrar o preço mínimo ao qual nos é possível efectuar o negócio com resultados positivos. Para tal, é necessário em primeiro lugar verificar se:
- temos capacidade fabril disponível;
- os custos fixos não se alteram com a nova encomenda.
Vejamos agora o exemplo simplificado de uma empresa que tem o seu nível de laboração habitual situado no intervalo de produção, de determinada linha de produto, a oscilar entre as 7 e as 9 mil unidades. O comportamento dos seus custos até um limite de produção de 11 000 unidades (os custos fixos mantêm-se inalterados não existindo necessidade de novos investimentos em equipamento produtivo) é apresentado no quadro seguinte:
Com base nestes dados simplificados, é-nos possível representar graficamente os três tipos de custos que nos importa analisar: custos totais, custos variáveis e custos fixos.
Continuando o nosso exemplo, sabemos igualmente que a empresa factura 45 contos por unidade vendida. Podemos assim completar a representação gráfica acrescentando o volume de facturação. A partir deste momento passamos a conhecer o
ponto crítico das vendas, isto é, onde o resultado é nulo (vendas de 5000 unidades; 225000 contos) bem como a área de lucro e de prejuízo. Assinalámos no gráfico a área de lucro, sendo a de prejuízo a que se encontra à esquerda do ponto crítico das vendas. Ambas são limitadas pelas rectas representativas dos
custos totais e do
valor de vendas.
Analisemos a situação da empresa no momento A, com uma produção de 8000 unidades:
Vamos agora responder à questão, formulada no início, acerca da possibilidade de vender uma quantidade adicional de 2000 unidades ao preço de 30 contos. À primeira vista seria uma opção inviável, já que o custo unitário é de 38 contos. Mas esse é o custo total. Vejamos agora em separado as suas componentes: Sendo o
custo variável unitário de 25 contos a unidade, será este o valor mínimo de venda, acrescido de alguma margem. Neste caso, a proposta representa uma margem de 20% sobre os custos variáveis. Caso a empresa aceite a proposta poderá vir a estar, num momento B, com os valores apurados no mapa seguinte:
Os resultados passarão a ser superiores aos verificados no momento A, não existindo, por isso, qualquer razão para não se fazer o negócio.
Tal como ficou provado e se pode verificar no gráfico, a partir do momento em que o
ponto crítico das vendas foi superado, não voltaremos a sair da área de lucro, desde que se verifiquem as condições atrás referidas e que relembramos:
- Capacidade fabril disponível;
- Manutenção do nível dos custos fixos;
- Preço de venda superior aos custos variáveis.
Assim, o aparente prejuízo foi transformado em lucro. Jorge Faria
Artigo publicado na revista Inter Gráficas, Março de 1999